Você está aqui mesmo?

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Por: Jaqueline Conessa

A arte de prestar atenção de verdade no clown hospitalar

Um palhaço entra em um quarto de hospital.

Ele tem repertório, brincadeiras, objetos e algumas boas ideias sobre o que poderá fazer.

Mas existe uma pergunta que deveria vir antes de todas elas:

Ele percebeu o que já estava acontecendo antes de chegar?

No clown hospitalar, estar presente é muito mais do que estar fisicamente dentro do quarto. É perceber o paciente, o acompanhante, os profissionais de saúde, o ambiente e, principalmente, o companheiro de cena.

É ouvir o que foi dito, e estar atento também àquilo que ninguém disse.

Por isso, antes de pensar “o que eu vou fazer?”, talvez exista uma pergunta mais importante:

“O que está acontecendo aqui?”

Antes de propor, perceba

Viola Spolin, uma das principais referências dos jogos teatrais e da improvisação, trabalha a atenção, o foco e a percepção como elementos que podem ser desenvolvidos por meio do treinamento.

Isso é especialmente importante para o clown hospitalar.

O hospital não é um palco preparado para receber nossa cena. Quando chegamos, a vida já está acontecendo. Há relações, silêncios, procedimentos, emoções e necessidades em andamento.

Nossa primeira tarefa, portanto, não deveria ser transformar aquele ambiente.

Deveria ser percebê-lo.

Antes de propor alguma coisa, perceba alguma coisa.

Parece simples. Na prática, exige muito treinamento.

A gente constrói junto

Essa atenção também precisa estar voltada para o companheiro de cena.

Keith Johnstone, referência fundamental da improvisação, trabalha conceitos como oferta, aceitação e bloqueio. Quando um jogador propõe algo, oferece ao parceiro material para que a cena continue sendo construída.

O problema aparece quando estamos tão interessados em nossa própria ideia que deixamos de perceber a proposta que acabou de surgir.

E isso acontece facilmente no clown.

Queremos acrescentar. Fazer graça. Criar outra coisa.

Mas uma cena não precisa necessariamente de mais uma ideia.

Às vezes precisa que alguém perceba a ideia que já está funcionando e ajude-a a crescer.

A gente não disputa a cena. A gente constrói junto.

E isso também significa descobrir que reagir é jogar, esperar é jogar e, muitas vezes, sustentar também é jogar.

Um radar que precisa estar sempre ligado

No hospital, a atenção do clown precisa circular constantemente.

Ele percebe a si mesmo.

Percebe o parceiro.

Percebe o paciente e as pessoas ao redor.

Percebe o ambiente.

É uma espécie de radar de 360°.

Um olhar do parceiro pode significar “vai”, “espera”, “continua”, “muda” ou “vamos embora”.

Uma mudança no paciente pode indicar que é hora de observar antes de continuar.

A entrada de um profissional pode transformar completamente o momento.

Tudo isso acontece enquanto a cena continua.

Quando uma dupla está realmente conectada, às vezes parece até que existe telepatia.

Não existe.

Existe atenção treinada.

Presença também se treina

Talvez esse seja um dos aspectos mais importantes da formação do clown hospitalar.

Não basta ter boas brincadeiras.

É preciso aprender a estar disponível para abandonar uma delas.

Não basta saber improvisar.

É preciso perceber com quem, onde e em que momento estamos improvisando.

Não basta olhar para o parceiro.

É preciso aprender a enxergá-lo.

No Rumo ao Riso, gostamos de sintetizar essa prática em três movimentos:

PERCEBER → ACEITAR → RESPONDER

Mas entender essas três palavras é a parte fácil.

O desafio é conseguir fazer isso quando estamos dentro de uma cena, com o parceiro criando, o paciente reagindo e o ambiente mudando ao nosso redor.

E isso não se aprende apenas lendo. Treina-se.

Você está aqui mesmo?

Essa é uma pergunta que todo clown pode levar consigo antes de entrar em um quarto:

Estou aqui para executar aquilo que pensei ou estou disponível para descobrir aquilo que pode acontecer?

Porque a qualidade de uma intervenção não depende apenas do que sabemos fazer.

Depende também daquilo que somos capazes de perceber.

E talvez o objetivo seja chegar ao ponto em que dois parceiros consigam se olhar durante uma cena e, sem dizer nenhuma palavra, perguntar:

“Você está aqui comigo?”

E ambos saibam a resposta:

“Tô. Vamos.”

Quer aprofundar esse trabalho com sua equipe?

Rumo ao Riso realiza formações, palestras e vivências sobre clown hospitalar, com temas como presença, escuta de cena, improvisação, comunicação não verbal, atenção ao ambiente e construção em dupla.

Porque entender a importância da presença é o primeiro passo.

Aprender a treiná-la é outra história.

Entre em contato com o Rumo ao Riso e leve essa formação para sua equipe.

Referências: Viola Spolin, Improvisação para o Teatro; Keith Johnstone, Impro; Carl Rogers, Tornar-se Pessoa; Marshall Rosenberg, Comunicação Não Violenta.

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Um movimento de humanização hospitalar que acredita no poder da arte, da escuta e da literatura.
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